sexta-feira, 19 de junho de 2009

















Toldos e Poemas. A partir de amanhã

(mas já se pode espreitar)

Orquestra Gulbenkian

Amanhã, 20 de Junho, no Anfiteatro ao Ar Livre

Na continuação de anteriores apresentações no Anfiteatro ao Ar Livre dos jardins da Fundação, a Orquestra Gulbenkian organizou para este Verão um programa da sua inteira responsabilidade a propósito das relações musicais possíveis entre compositores da América Latina, de África e da Europa. Num único concerto e sob a direcção do maestro Osvaldo Ferreira, vamos poder assistir à execução das seguintes obras:

George Gershwin – Cuban Overture 10’
Heitor Villa-Lobos – Dansa e Toccata (da Bachiana Brasileira N.º 2) 10’
Hans Rosenschoon – Clouds Clearing 10’
Alberto Ginastera - Variações Concertantes 23’
Aaron Copland – Three Latin-American Skecthes 10’
Astor Piazzolla – Violentango 5’

(um video de Violentango de Piazolla, pela Orquestra Sinfónica de Haifa)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Convide-me a passar a noite na sua boca
Conte-me a juventude dos rios
Pressione a minha língua contra o seu olho de vidro
Dê-me a sua perna como alimento
E depois durmamos irmão do meu irmão
Porque os nossos beijos morrem mais depressa que a noite.

Joyce Mansour


(Tradução anónima)
Hoje, às 18h30, na FNAC do Chiado, apresentação do Programa Gulbenkian Próximo Futuro.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Fatal

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.


Adélia Prado

Bagagem
Livros Cotovia, 2002

"A Casa" de José Bechara (montagem)

Omar Souleyman




Omar Souleyman é uma estrela da música popular da Síria. Editou já para cima de 500 discos e cassetes (tanto em estúdio como ao vivo). Com uma carreira de 15 anos, recolhe vocabulários musicais da sua terra natal, do Iraque, Turquia e da vasta população Curda. Trabalhando desde o Dabke (música de dança folclórica regional), acompanhado de um indescritível som de teclado em escalas arábicas infernais, emprega também orquestrações de metais, cordas e percussão. Paralelamente, tem constantemente procurado explorar formas de canto improvisado tradicional, de pendor mais meditativo.

No dia 21 de Junho, às 19h00 em concerto com o Group Doueh.

Sessão de Djs Sublime Frequencies (na esplanada do Centro de Arte Moderna) e projecção de filmes Sublime Frequencies a partir das 17h00.

Toldos e Poemas (montagem)
















(fotografia: Catarina Botelho)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Trouxa de 8 couves

D. Josefina Amélia dos Prazeres Santos Tembe
viajando no tejadilho do calhambeque "Chapa 100"
ia à cidade de Maputo vender
uma trouxa de 8 couves
quando aquele frufru
da rajada não deixou.

José Craveirinha

"A Casa" de José Bechara

















A casa do artista plástico José Bechara (Rio de Janeiro 1957; http://www.josebechara.com/) teve a sua primeira figuração no contexto de um workshop no Paraná, em Maio de 2002. Então a casa, literalmente uma casa, colorida, tropical, expulsava os seus haveres de um modo quase lúdico, quase infantil, quase rebelde. Era o início de um outro – mais um - processo de criação e de experimentação, prática obsessivamente permanente do artista. Depois a casa apareceu mais tarde na quase-forma com que é instalada aqui no pátio em frente ao Museu Gulbenkian. A casa assume agora o lado absolutamente físico, atlético da sua condição de construção e o lado metafórico da condição de vida. Nesta casa temos, pois, algo que vem de outros trabalhos e suportes de José Bechara como as lonas de camiões oxidadas, as peles curtidas de bovinos como telas, as folhas de papel enferrujadas e suspensas. O lado físico, o lado do confronto entre o corpo e a construção artística plástica é da ordem da criação do artista. Por isso é possível falar nesta dimensão atlética da casa, da sua fisicalidade, de fluidos que são os móveis e os pertences expulsos pelos orifícios da casa que faz com que expressões como a ’casa vomita‘, a ’casa cospe’,”a ’casa expulsa‘, numa aparente elegância que lhe é dada pela composição, tenham todo o sentido. E é neste momento que nos aproximamos da metáfora possível desta casa: a casa não contém mais a tensão no seu interior seja ela social, psicológica, afectiva, política e tem de expulsar. Mas é na forma desta expulsão que está também a pertinência desta obra porque este movimento é de regeneração do interior da casa, da vida e do que faz as ideias. Para Bechara, no contexto de toda a sua obra, é fulcral a regeneração, a capacidade de fazer circular a energia nas suas várias expressões: na arte, no dinheiro, nas cidades, nas casas e nada disto é apocalíptico. Pelo contrário, o vazio que se imagina ficará como fim no interior da casa e é, em segredo, quase um poema haiku ou um aforismo essencial sobre a vitalidade, sobre a energia da criação.

Em cima, os preparativos para "A Casa". A partir do dia 20 de Junho.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O que dizem as estrelas

(fragmento)

as estrelas levam-nos o coração
porque as estrelas não têm o mínimo desejo
de nos devorar!
as estrelas trocam-nos o coração pelo coração de
uma estrela
as estrelas levam-nos o coração e dão-nos
o coração de uma estrela
e nunca mais teremos fome

porque as estrelas dizem: ‘Tsau! Tsau!’
e os bosquímanos dizem que as estrelas amaldiçoam
os olhos do antílope
as estrelas dizem: ‘tsau’, dizem: ‘Tsau! Tsau!’
amaldiçoam os olhos do antílope
cresci a ouvir as estrelas
as estrelas dizem: ‘Tsau! Tsau!’

é sempre Verão quando ouvimos as estrelas dizer Tsau


Composto por /HAN#KASS'O ( - ); convertido num poema por Antjie Krog


(Tradução: Catarina Belo)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Bipolarhoney

I’m a creep, I’m a weirdo, what the hell am I doing here, I don’t belong here
Radiohead, ‘Creep’ (Pablo Honey)

quem me dera poder levantar-me como ontem
tomar banho, vestir-me, ir trabalhar como ontem
mas hoje é outro dia
hoje, tudo o que sei se perdeu e tudo o que se perdeu sou eu
talvez amanhã seja melhor
se eu conseguir sobreviver ao perigo de hoje

Ronelda Kamfer

(tradução de Catarina Belo)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Meio da Vida

Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida


Sophia de Mello Breyner Andresen

Livro Sexto
Círculo de Poesia – Moraes Editores
Lisboa 1976

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Água

Se eu fosse chamado
A erigir uma religião
Faria uso da água.

Ir à igreja
Envolveria passar a vau
Com roupas secas, diferentes;

A minha liturgia empregaria
Imagens de encharcar,
Um alagamento de furor e devoção.

E do lado nascente iria erguer
Um copo de água
Em que a luz de qualquer ângulo
Se congregasse sem fim.

Philip Larkin


(tradução de Rui Carvalho Homem)

Toldos e Poemas

O jardim da Fundação Gulbenkian é um lugar de culto. Começa por ser um jardim magnificamente desenhado pelo Arquitecto Ribeiro Telles - de algum modo inspirado numa ilha paradisíaca conforme o autor, com uma flora diversificada com fortes traços do sul, para se tornar num lugar cheio de histórias de espectáculos, de lições públicas, por onde passam visitantes cujos maiores propósitos são lúdicos, de encontros ou de leituras prazenteiras. No Verão, as sombras das árvores protegem os passeantes do calor tórrido que em certos dias se faz sentir, que indicia que estamos no Sul,e, a este propósito, desde 2006, têm sido instalados toldos que, no seu conjunto, perfazem um caminho que começou por ser um passeio de sombra que protegia do sol abrasador e, posteriormente, esta função foi associada à função de suporte de telas impressas. Este ano este passeio terá inscrito, ao longo dos seus 80 metros, poemas de autores da mais variada região cultural, clássicos, modernos e contemporâneos.

A partir do dia 20 de Junho, e até ao dia 30 de Setembro, no Jardim Gulbenkian